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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Lloyd Kaufman: A Mente Insana por Trás da Troma














“A pessoa que assiste a um filme da Troma sabe que ele pode adorar ou odiar o filme, mas certamente o espectador sabe que nunca mais vai esquecer de um filme da Troma”.

Quem é Lloyd Kaufman? Aposto um doce com o leitor que conhece o alvo desta biografia que se ele for na fila de cinema de um remake de A HORA DO PESADELO da vida ou na seção de Terror de sua locadora favorita e sair perguntando quem raios é Lloyd Kaufman ninguém saberia responder (além de todo mundo achar que você é doido). Todavia se você ou eles nunca ouviram falar deste fulano, acredite que a culpa não é sua, pois se nem no seu país de origem ele é reconhecido, quanto mais por aqui, onde o Sol dos filmes independentes tarda a bater… Só que este sujeito é uma figurinha que merece ser mais conhecida e minha intenção aqui é corrigir essa grande falha, não apenas com os filmes B, mas para com o cinema em geral (bem, talvez não tão grande… Hehehe…).

Kaufman, um diretor descolado conhecido pelo seu senso bizarro de humor e é principalmente um produtor com um gênio empreendedor, pode ser considerado um cineasta no mesmo estilo de Roger Corman e Glauber Rocha, com sua célebre frase “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” - reservadas as devidas proporções, claro.

Curioso saber que Stanley Lloyd Kaufman Jr. (ou “Uncle Lloydie” como é mais conhecido), nascido em 30 de dezembro de 1945, na cidade de Nova York, quando criança não queria nem saber da sétima arte – seu sonho em termos de artes era trabalhar em musicais da Broadway – até o ano de 1964 enquanto estudava na conhecida universidade de Yale, na mesma classe do futuro presidente-fazedor-de-merda George W. Bush (Kaufman se referiu publicamente a Bush como seu “colega de classe cheirador de coca menos favorito de Yale”). Dedicado em se tornar um assistente social, ele fez amizades com Robert Edelstein e Eric Sherman (filho do cineasta Vincent Sherman falecido em 2006), os quais o introduziram no mundo do cinema, em produções B e os trabalhos de Roger Corman, iniciando sua obsessão duradoura com os mundo do cinema que nunca acabou.

Em 1966, Lloyd dá um tempo nos estudos e se alista nas Forças de Paz Americanas, que o mandaram para Chade, um país localizado na África Central. Vivendo por lá por cerca de um ano, de acordo com sua autobiografia intitulada “All I Need to Know about Filmmaking I Learned from the Toxic Avenger” (não se admirem se for um tremendo exagero), ele contraiu uma série de horríveis doenças, incluindo dengue, pneumonia equatorial, vinte diferentes variedades de diarréia e algumas doenças sexualmente transmissíveis (incluindo uma que causou uma febre alucinatória onde um par de olhos cresciam em seu pênis!). Neste aspecto tenebroso, Lloyd começa sua carreira de diretor com um “curta” de 15 minutos filmado em 16mm dos nativos do local matando e desmembrando um porco para comer. O filme causou a fúria de muitos de seus parentes e amigos durante a primeira apresentação em sua volta aos Estados Unidos. Este trabalho em particular serviu como característica base para seus trabalhos profissionais posteriores e atuais: violência extrema usada primariamente para ofender o público.

Alguns anos depois, Kaufman produziria um filme de baixo orçamento de Robert Edelstein chamado Rappaccini, investindo o dinheiro que ganhou como retorno de sua própria estréia profissional, uma produção intitulada “The Girl Who Returned” (1969), uma comédia porcaria feita com uma paleozóica câmera Bolex que filmava apenas 40 segundos de cada vez. Depois da graduação em Yale, Lloyd trabalhou por algum tempo na Cannon Pictures, onde conheceu John G. Avildsen, diretor de ROCKY e KARATE KID. Os dois se tornaram associados por vários anos em produções de baixo orçamento como Cry Uncle!, de 1971 (diz a lenda que esta é a comédia favorita de Oliver Stone). Neste período ele faria seu segundo filme, The Battle of Love’s Return, de 1970 – recebendo boas criticas e contando com uma ponta de Oliver Stone atuando – e começaria a produzir trashes como Sugar Cookies e o israelita Big Gus, What’s the Fuss? (1973) que arruinou a produtora 15th Street Films de seu amigo de longa data e parceiro de negócios Michael Herz, ficando Lloyd e Herz endividados em milhares de dólares com parentes e investidores da produção. O principal motivo seria que no exato dia do lançamento em Israel estourou uma guerra naquele país, terminando com qualquer chance de sucesso que este filme pudesse obter. Rumores nunca confirmados indicam que Kaufman dirigiu e editou pelo menos dois filmes pornôs neste período: The Newcomers (1972) e The Divine Obsession (1975), sob o pseudônimo de Louis Su.

Até que em 1974 um grande passo para o cinema independente se iniciava, após um encontro com Herz – ambos formavam a produtora Troma Entertainment, usando um closet de zelador como base de operações e um orçamento de reles 300 dólares. No início Lloyd foi apresentado ao diretor Joel M. Reed, que possuía um filme inacabado chamado “Master Sardu and the Horror Trio”. A película foi re-editada, finalizada na Troma e re-intitulada para chamar a atenção do público se tornando Blood Sucking Freaks (1976) – o pequeno sucesso pagava o aluguel, no entanto apenas isso não fora o suficiente. Para pagar as contas do novo negócio, Lloyd fazia trabalhos esporádicos como free-lance em produções Hollywoodianas como ROCKY (1976), OS EMBALOS DE SÁBADO A NOITE (1977) e NIMITZ – DE VOLTA AO INFERNO (1980). Trabalhando nestes filmes, Kaufman ficou revoltado com certas atitudes cínicas e acessos de estrelismo de membros das equipes, deixando-o com um o interesse de manter-se nos negócios de forma independente. Desde então, o lema da Troma seria “Não esconda sua idéia, por mais idiota que possa parecer”.

No início dos anos 80, a dupla, Lloyd e Michael Herz, dá início à produção e distribuição de comédias com alto teor erótico, como The First-Turn On, de 1983 (que por muito pouco não teve Madonna fazendo parte do elenco) e Squeeze Play (1980) – este último com todo dinheiro ganho com Blood Sucking Freaks – apesar de desconhecidos do público brasileiro foram bem recebidos pelo mercado e se tornaram precursores da onda de filmes similares que incluem sucessos como PORKY’S (1982) e CLUBE DOS CAFAJESTES (1978).

Em 1984 a tradicional revista Variety publicaria um artigo chamado “Os filmes de horror estão mortos”. Inspirado como forma de responder aos argumentos do artigo, Kaufman resolveu fazer seu próprio horror B: estava começando o que se tornaria THE TOXIC AVENGER: O VINGADOR TÓXICO (1985), único filme dirigido por Lloyd Kaufman lançado no Brasil (ainda em VHS pela extinta Central Home Vídeo e item raríssimo para colecionadores).

Originalmente intitulado “Health Club Horror”, O VINGADOR TÓXICO conta a história do faxineiro retardado Melvin que cai em um barril de lixo tóxico após uma brincadeira de mal gosto, tornando-se um super-herói combatente do crime. Todas as nuances do trabalho – não apenas do diretor Kaufman, mas das produções associadas a Troma em geral, estão contidos neste filme: subversão da autoridade, fixação pela anatomia feminina, violência gratuita e politicamente incorreta (como nas cenas em que uma velha é espancada com sua própria muleta, um cachorro que é detonado com uma espingarda ou quando uma criança de bicicleta é decapitada por um carro em movimento, etc.), produção escancaradamente tosca e uso de humor negro de gosto duvidoso. A princípio o filme não rendeu, principalmente por causa da falta de dinheiro para a campanha de marketing, entretanto com o tempo se tornou o carro chefe e mais popular filme da Troma, inspirando uma franquia inteira com três seqüências, um desenho animado para a televisão, gibis (inicialmente lançados pela Marvel e depois pela própria Troma), um livro e toda a sorte de produtos que transformaram o deformado Toxie como mascote da produtora e o Mickey Mouse do cinema trash.

O próximo filme de Lloyd foi “Class of Nuke ‘Em High” (1986), co-dirigido por Richard W. Haines. Apesar de não ter obtido o mesmo sucesso comercial de O VINGADOR TÓXICO, a produção gerou mais duas seqüências e é um dos favoritos da videoteca da Troma. Houve um tempo em que “Class of Nuke ‘Em High” foi o VHS mais vendido pela Troma, com a explosão das locadoras de vídeo. De acordo com a autobiografia de Lloyd, isso acontecia devido ao desespero das recém-inauguradas lojas encherem suas prateleiras com a maior quantidade de produções possível e também por causa dos freqüentes roubos destas fitas, o que forçavam as lojas a comprarem cópias para substituição.

Tão logo “Class of Nuke ‘em High” foi distribuído, Kaufman dirigiria outro “sucesso”: Troma’s War (1988). Filmado com o intuito de ser uma crítica ao presidente Ronald Reagan e sua tentativa de gramurizar a guerra, a história é concentrada em um grupo de pessoas comuns que caem em uma ilha deserta e descobrem que é habitada por uma milícia que planeja atacar o governo dos Estados Unidos. Lloyd considera seu favorito pessoal de todos os seus trabalhos. Em seguida Kaufman e Herz dirigiram o filme Sgt. Kabukiman, NYPD (1991) e duas sequências para O VINGADOR TÓXICO (rodadas ao mesmo tempo e ambas lançadas em 1989).

Durante o final do século passado, Kaufman dirigiu três filmes: Tromeo and Juliet (1996), uma adaptação a lá Troma da obra de Shakespeare, contendo um monte de violência, gore e vulgaridades em geral e que ganhou o grande prêmio no Fanta Festival, em Roma; Terror Firmer (1999), uma autoparódia em forma de um filme de terror sobre um assassino transexual que mata o elenco de um filme da Troma (vagamente inspirado na autobiografia de Lloyd) e Citizen Toxie: The Toxic Avenger IV (2000), quarto filme da franquia onde Toxie luta contra seu alter-ego, The Noxious Offender. O filme foi bastante polemizado por causa de uma cena envolvendo um homem negro sendo dragado por um caminhão por supremacistas brancos, mesmo que tenha sido baseado em um evento real e que tenha sido feita uma cena parecida no seriado de TV Oz, que não foi acusado de racismo.

A Troma passou por dificuldades ao financiar um filme chamado Tales from the Crapper, que custou 250 mil dólares a despeito de que quase tudo o que foi filmado foi inutilizado. India Allen, um dos produtores, pulou fora do filme na metade do caminho e acionou a produtora judicialmente. Lloyd passou a supervisar pessoalmente as refilmagens, onde a equipe e o elenco prestaram pouca atenção ao trabalho, passando a maior parte do tempo bebendo e zoando, atributos que Lloyd usa para justificar o fracasso do filme. Tales from the Crapper foi re-editado com nudez extra, mais gore e comédia e lançado em DVD em 2004.

Ainda hoje a Troma Films continua produzindo (com valores comparativamente irrisórios em relação às grandes potências – algo entre 3 mil e 500 mil dólares por filme) e hoje distribui um catálogo com mais de mil filmes, entre eles pequenos clássicos do cinema independente como Cannibal! The Musical (de 1996, um dos primeiros trabalhos dos criadores de South Park, Trey Parker e Matt Stone) e A CAMISINHA ASSASSINA (1996), um feito fantástico para uma produtora nascida e criada longe das grandes corporações, porém ainda injustamente renegada pelo mercado.

Mesmo assim Lloyd continua encorajando a produção de guerrilha – o qual considera que é uma forma de arte que está morrendo graças aos grandes conglomerados que dominam o mercado – através de seu curso itinerante “Make your damn movie” (disponível também em DVD e livro) e o festival Tromadance realizado desde 2000 onde não é cobrado nada para que diretores exibam seus filmes, tampouco para que o público os assista, também faz participações especiais em filmes de horror de baixo orçamento sem cobrar um centavo (Lloyd pode ser visto mais recentemente numa ponta em SERES RASTEJANTES) e defende a pirataria como forma de distribuição gratuita de cultura de qualidade (nas suas próprias palavras: “Para a Troma mais vale um milhão de fãs do que um milhão de dólares”).

Seu último filme até o momento é Poultrygeist: Night of the Chicken Dead, finalizado no final de 2005 e que após muitos atrasos já é exibido em eventos e em circuito restrito nos Estados Unidos para um lançamento maior em setembro de 2007. Atualmente Lloyd negocia com Hollywood a realização de remakes dos “grandes sucessos” do catálogo da Troma como O VINGADOR TÓXICO (já confirmado) e Mother’s Day (já para lançamento em 2011 com direção de Darren Lynn Bousman e Rebecca De Mornay no papel principal), Poultrygeist e Class of Nuke ‘Em High também estão sendo negociados para refilmagens.

FILMOGRAFIA SELECIONADA

2006: Poultrygeist: Night of the Chicken Dead
2004: Tales from the Crapper
2003: Parts of the Family
2000: Citizen Toxie: The Toxic Avenger IV
1999: Terror Firmer
1996: Tromeo and Juliet
1991: Sgt. Kabukiman N.Y.P.D.
1989: The Toxic Avenger Part III: The Last Temptation of Toxie
1889: The Toxic Avenger, Part II
1988: Troma’s War
1986: Class of Nuke ‘Em High
1985: O VINGADOR TÓXICO (The Toxic Avenger)
1983: The First Turn-On!!
1983: Stuck on You!
1982: Waitress!
1980: Squeeze Play
1971: The Battle of Love’s Return
1969: The Girl Who Returned

CURIOSIDADES

- Lloyd Kaufman co-escreveu um roteiro com Stan Lee que nunca se tornou um filme;

- Foi indicado para a classe inaugural do Hall da Fama Internacional de Horror e Sci-Fi em Tempe, Arizona em 22 de Outubro de 2005 junto com Tobe Hooper;

- Em seus primeiros filmes, Lloyd Kaufman é creditado como Samuel Weil (nome de seu avô) para driblar as regras da Associação dos Diretores da América;

- Apesar de ser decendente de judeus, Kaufman se considera como um ateu, entretanto segue alguns ensinamentos do taoísmo;

- Alguns dos diretores prediletos de Lloyd incluem Charlie Chaplin, Buster Keaton, John Ford, Kenji Mizoguchi (um dos três mestres do cinema japonês), Ernst Lubitsch e o cineasta experimental Stan Brakhage;

- Considerado inspiração para diretores de renome como Peter Jackson, Kevin Smith (de O BALCONISTA), Quentin Tarantino, Álex de la Iglesia (de 800 BALAS e O DIA DA BESTA), Takashi Miike, Mike Judge (criador de Beavis e Butt-Head) e Eli Roth, o qual pediu que Kaufman fizesse uma ponta em CABANA DO INFERNO, o que não aconteceu;

- Embora muitos destes citados tentem esconder o fato, muitos atores famosos iniciaram carreira em um filme da Troma, entre eles estão Kevin Costner, Billy Bob Thornton, Samuel L. Jackson, Robert DeNiro, Dennis Hopper, Carmen Electra e Dustin Hoffman;

- Lloyd Kaufman é casado com Patricia Kaufman e possui três filhas.



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